segunda-feira, março 01, 2010

As Culpadas



Hoje, ao acaso, encontrei uma notícia, no mínimo, revoltante: mulheres são culpadas pelo estupro. Logo que li o título (já com raiva nos olhos), tratei de verificar a data desse artigo, não podia ser algo recente. Ontem, essa notícia foi publicada ontem. É incrível imaginar que esse argumento bizzaro é disseminado quando o estupro é uma realidade que afeta 20% das mulheres em todo o mundo, segundo Relatório da Anistia Internacional
A notícia toda gira em torno de um panfleto religioso, no qual prolifera o mesmo discurso (cretino) de sempre: as mulheres instigam os homens a agirem de forma pecaminosa (vide Eva e tantas outras), as mulheres usam suas roupas com o intuito de provocar os homens e, mesmo que não esteja algo à mostra, até assim a mulher age com pecado.
Não queremos discutir religião, e sim quando essas frases sem nexo saem do âmbito religioso, assaltam o imaginário popular e ganham as ruas. Não é raro encontrar inúmeras pesquisas (essa, essa aqui e essa outra) que demonstram que a população (principalmente as próprias mulheres) culpam as vítimas pelo estupro. Uma dessas pesquisas diz que pelo menos um terço das pessoas na Grã-Bretanha acreditam que uma mulher é responsável, de forma parcial ou total, por ser estuprada se ela tiver flertado com o futuro agressor.
Outro caso que nos dá assombro só de ouvir aconteceu em Nova Délhi, cidade que sofreu (e ainda sofre) uma onda de estupros, onde em resposta a esses ataques a ministra em exercício para assuntos femininos, Kanti Singh, disse que "os pais deveriam observar que tipo de roupas as moças estão usando quando elas saem de casa," atribuindo, desse modo, a culpa ao corpo feminino, como se ele fosse um produto disponível, podendo ser tomado à força por qualquer homem, desde que este se sentisse atraído pela embalagem.
No cinema, o assunto é mencionado em Laranja Mecânica (1971), filme inspirado no livro homônimo de Anthony Burgess, dirigido por Stanley Kubrick, o longa narra o percurso de Alex (Malcolm McDowell), um garoto que faz parte de uma gangue e que, sem escrúpulos, rouba, mata e estupra. A cena do estupro é realizada ao som da canção Singing in the rain, cantada pelo próprio Alex. Outra cena de estupro, mas no sentido metafórico, ocorre quando Alex e seu bando invadem a casa de uma dançarina, que é morta com um pênis gigante.
Em outro filme, Meninos não Choram (1999), o estupro é punição. Teena Brandon (Hilary Swank) é uma menina que decide trocar de identidade, passando-se por um menino chamado Brandon Teena. No entanto, sua identidade é descoberta e, por causar incômodo, por fugir dos paradigmas, ela é estuprada e morta. Ressalta-se que esse filme é baseado em uma história verídica que aconteceu em 1993.
Entretanto, a obra cinematográfica que chegou mais perto (isso é na minha opinião, é claro e com base em minha memória falha) das discussões sobre a culpa das vítimas nos casos de estupros foi em Acusados (1988). Um filme de Jonathan Kaplan com a atuação fascinante de Judie Foster, que vive Sarah Tobias, uma mulher que é estuprada em um bar e, ao denunciar a agressão, ela sofre humilhações, questionamentos e a culpa pelo o que havia acontecido com ela. Sarah se depara com um sistema machista e conservador, que acha que certas mulheres merecem ser estupradas, seja por suas atitudes, seja por suas roupas.
No Brasil, a coisa ainda caminha (a lentos passos, mas caminha), com a Lei Maria da Penha houve uma proteção mais ampla quanto à violência doméstica sofrida pelas mulheres, no entanto, ainda é difícil as mulheres denunciarem os casos de estupro, ora por vergonha, ora por culpa, já que esses discursos massacram a todas.
Devemos, todas, gritar contra essas frases soltas. Devemos resistir frente a um sistema que inscreve que a mulher é um corpo disponível. O estupro não é e nem nunca foi culpa das mulheres, a culpa desse ato (ou a maior delas) é sim da hipocrisia que criou no homem uma noção ridícula de instinto. 


8 comentários:

  1. Conceito antigo que parece firmado na cabeça dos conservadores. Culpar vítimas pelo crime. Já li e ouvi afirmações dessas até com meninas crianças que estariam "instigando" as mentes doentias. Não faço parte do time xiita na guerra dos sexos, acho até patético algumas considerações, mas acredito que em casos como este, a mulher ainda sofre, e muito, com os conceitos religiosos e culturais na sociedade.

    Bom texto!

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  2. Muitíssimo obrigada, Cafeína. Eu queria estreiar o blog com algo mais up, mas não havia como eu deixar isso passar. O pior é que esse discurso é dito por grande parte da população, sabe. Por pessoas que nem são conservadoras (ao fingem não ser), parece que é algo bem impregnado.
    Ah, hoje eu estava lembrando do "Ensaio sobre a cegueira" que também tem cenas de estupro, cenas fortes, em um estado que o corpo das mulheres são permutas, objetos.

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  3. Assim como a Cafeína, também já ouvi relatos da provocação de uma (quase) criança, porém a coisa se deu de forma consentida. O que não deixa de ser um abuso, na minha opinião, do cara que leva isso em frente.

    Sobre o tema estupro, ainda tem um filme excelente: Irréversible, de Gaspar Noé (2002), com uma narrativa cronológica inversa muito interessante.

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  4. Lendo seu post lembrei de um documentário, A margem do corpo, dirigido por Debóra Diniz, em que é narrada a peregrinação de uma mulher que, depois de estuprada, tenta fazer o aborto "na legalidade", mas, como não consegue, por conta do discurso religioso, médico e também jurídico, mata afogado o fruto do aborto, sua filha de, então, 11 meses de vida. Nesse filme conjuga-se estupro e aborto de uma forma que fica evidente o quanto há na margem do corpo feminino que tenta o constituir, disciplinar etc. Essa margem que quer, a todo custo, construir os limites do corpo de mulheres. Adorei o seu post! Estreia magistral (estreia, agora sem hifen)! Beijo grande!

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  5. O pior é que isso não é nenhuma novidade. Lembrei que escrevi sobre isso em 2005. Triste saber que "evoluir" é um verbo que desaprendemos a conjugar.

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  6. Olá, meninas!
    Flávia, eu não conheço esse filme, ótima dica!

    Bruna, eu já conheço esse documentário e o tenho em minha estante. É angustiante ver tudo o que aconteceu com essa jovem, o que a vida dela se tornou por causa do discurso machista do estupro. Nesse documentário, há pessoas que dizem que ela inventou tudo, que ela era vagabunda, que era bem capaz de ter se queimado e se mordido. Vamos lutar contra isso!

    Cláudia, vou ler seu texto! Pena, saber que tanto tempo depois eu escrevi o mesmo... Vamos ver se daqui a algum tempo, a gente não escreve algo diferente...

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  7. Adorei a frase final em que a sociedade cria uma noção ridícula de um conecito de instinto masculino!
    Adorei a matéria!
    Não lembbrava que em meninos não choram, ela era morta. Lembro do estupro.
    Amo esse filme, mas só assisti a ele uma vez.
    Estupro, na minha opinião, é pior do que a morte.
    É incrível que as pessoas sejam tão insensíveis. Acho que elas nunca imagibnam que a filha deles pode ser vítima ou a esposa.

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  8. Pat Medusa, que prazer tê-la por aqui! Muito obrigada!!! Deixei a indignação falar por mim e acho que muitas mulheres acabaram concordando com o que eu disse. Sim, ela morre no filme, vítima desse ato brutal. Assisti muito jovem e nunca mais revi esse filme, acho que foi forte demais. Isso aconteceu também quando eu li "O olho mais azul" (acho que ficou assim a tradução) de Toni Morisson, um livro em que culmina no estupro de uma menina pelo seu próprio pai, sob a ótica dele. Estupro é sim uma espécie de morte, a sociedade mata a vítima ao proferir essas frases que a cortam todos os dias. Mas é isso, Pat, é sempre mais fácil atirar a pedra no telhado de outro, como se o nosso também não fosse de vidro.
    Poxa, legal a discussão de vcs, gostei de ter iniciado o debate, e que assim seja. Tentarei sempre trazer a polêmica para esse espaço.

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